domingo, 21 de junho de 2009

O namorado e Eça de Queirós


Olhava o mar imenso e a lembrança foi chegando como uma onda em sua mente, trazendo os olhos do menino quase perdido em seu passado.
Com um sorriso nos lábios deixou a memória ir para o tempo em que mar para ela era aquele olhar verde, profundo, que parecia conter toda a verdade do mundo. Nele, navegava por instantes quando se cruzavam nas ruas, quando ele passava pela calçada de sua casa e a olhava timidamente como a contar-lhe um segredo.
Pensando agora, sabia que era o segredo da descoberta do amor, do encantamento de olhares furtivos trocados de forma inocente, prenunciando o gozo entre um homem e uma mulher.
Perguntava-se se ali havia começado essa sua mania de se encantar pelos olhares de homens pela vida afora, fascinada pelos que lhe pareciam ir além do que viam.
O menino tinha uma namorada. Bonita, moça de família como se dizia na época, o namoro parecia seguir o rumo natural dos casais da cidadezinha que terminavam em véu e grinalda, filhos, vida parada do interior seguindo seu curso lento. Não eram amigas. A namorada sempre a olhava desconfiada parecendo dizer que sabia do segredo entre os dois.
Ria agora suavemente percebendo o que era a tão famosa intuição feminina, alardeada como característica feminina.
E o tempo passava...
Foi estudar na cidade grande, já não se interessava pelas férias em casa, que mais lhe pareciam uma punição. Sentia falta dos colegas da faculdade, das aulas, das discussões políticas, das greves, das reuniões em bares para mudar o mundo, sempre acompanhadas por violões e cantorias. Para ela, aquelas pessoas interioranas, alienadas, eram incapazes de compreender o verdadeiro significado da vida. Recusava-se a fazer os programas da antiga turma, agregando-se a um pequeno grupo que pensava como ela.
Lembrava-se rindo muito, agora, de um carnaval em que ficaram, eram cinco amigos, a noite toda no bar da rodoviária em frente ao clube, sentados nas mesinhas toscas com os bêbados da cidade até o amanhecer pelo prazer da transgredir a moral e os bons costumes da família tradicional interiorana. Tão jovens, tanto ainda para aprender da vida, e já se achavam os donos do mundo!
Apesar da relutância em conviver com quem achava provinciano, fazia uma exceção.
Á tarde, sentada no alpendre com a avó velhinha que tanto gostava, aguardava o mergulho no verde daquele olhar. Ele passava e, por segundos, não sabia explicar o que sentia, apenas uma sensação de prazer a percorrendo toda.
Noite de baile pré-carnavalesco, a irmã mais nova só poderia ir se ela fosse. Aprontou-se de forma displicente, sem vontade, apenas para fazê-la feliz, torcendo para que um dos amigos estivesse lá, assim o tempo passaria mais rápido. Ainda bem que era a última semana de férias, queria ir embora logo para sua nova vida.
Pensava agora nos conterrâneos da sua época, alguns tinham ficado por lá mesmo, outros se aventuraram por outros cantos da região, do estado, do país, do mundo. Ela se tornara, talvez, a provinciana para aqueles que tinham se tornado cidadãos do mundo... Quantas voltas na vida!
Ele veio em sua direção como um leopardo. Sempre a imagem dele surgia em sua mente como a de um felino. Talvez por ser quieto, ter um andar lento ou pelo olhar que lembrava um bicho à espreita.
Dançaram a noite toda quase sem se falarem. Os corpos unidos, as coxas entrelaçadas, o toque das mãos formavam palavras, o roçar das faces, linguagem. De madrugada, já eram namorados.
A semana voou. Muitas conversas e risadas sobre o desejo contido da adolescência, os ciúmes sem causa aparente da ex- namorada, os planos de cada um para suas vidas, o que fariam com a separação do período de aulas.
Longe, trocaram algumas cartas, saudades ao telefone, ela esperava as férias um pouco ansiosa para saber realmente como seria a continuidade do encontro.
Julho.
Começaram a fazer os programas tradicionais dos namorados da pequena cidade. Cinema, piscina, festas, clube. Clube, festas, piscina, cinema. Ele era quieto. Não gostava de política, não sabia de Marx,Trotsky, Lênin. Pensava seriamente em deixar a faculdade para tomar conta da fazenda do pai. MPB, Chico e Elis, não estavam em seu repertório musical. Mudar o mundo, diminuir as desigualdades sociais, não, para ele era o destino de cada um, assim era e assim seria o mundo, amem.
Uma noite, sentados num banco da praça, ela havia retirado um livro da biblioteca do clube, começaram a falar de literatura. O assunto foi parar em Eça de Queirós. Ele não fazia idéia de quem era e ria dizendo que também não tinha o menor interesse em saber.
Naquele momento algo dentro dela se rompeu e o verde daquele olhar se transformou de repente em um oceano de distância entre eles. Sentiu-se em uma ilha, despediu-se do mar.
Hora de ir embora, hora de adeus.
Hoje, ria da raiva que sentiu por ele não estar nem aí com o Eça, por não valorizar as letras que ela amava e que faziam sua imaginação ser tão maior do que seu pequeno mundo. Foi sua primeira opção pela literatura.
Em seu túmulo, o velho escritor deve ter dado boas gargalhadas.
Cupido às avessas, se não fosse por ele, talvez em vez do vagar à beira mar, poderia estar percorrendo o verde de canaviais, ou cuidando de repolhos e chuchus.
Será que seria mais feliz?

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