segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

 


Pequena recordação de Natal

 Dizem que os gatos têm sete vidas, acredito. De meus tantos natais,  sete deles poderiam ser de sete vidas.

Na primeira vida, o natal foi da criança, a lembrança? Ir à missa do galo com minha vó Mariquinha. Mal recordo se havia ceia em casa, mas devia ter - meu pai sempre foi festeiro ou como era a missa - tinha um menino Jesus, ah, dele eu lembro na manjedoura, mas o que ficou na memória foi o som dos saltos da vovó nos paralelepípedos das ruas de Igarapava. A lembrança amorosa da vó me faz sentir os dedos firmes de sua mão na minha a caminho da igreja.

Na segunda, adolescente, uma onda de risadas vem a minha mente. Minhas irmãs, mamãe e eu rindo muito com o resultado final da nossa árvore de natal, natural, enfeitada com carinho, mas toda torta, desengonçada é o termo certo. Era mais um galho do que uma árvore. E ríamos... ríamos... sinto o som daqueles risos até hoje ao lembrar. Revejo o carinho fraternal, uma lembrança feminina, nós quatro reunidas e minha mãe, sempre serena... Sorrio.

Na terceira,  mãe e filha, ainda no interior, um natal marcado pela recuperação, após um ano, dos problemas de saúde do filhote e a doença do papai. Família reunida, a ceia não poderia faltar, comida farta sempre foi algo que meu pai nunca abriu mão, talvez pela infância pobre. Sempre fomos carnívoros em casa, tinha porco, cabrito, peru, carneiro. Acompnhava cuscuz, arroz temperado, farofa e os doces, ah... os doces da mamãe! Sorvetão, gelatina colorida, torta paulista... Muitas conversas entre os irmãos, risos, filhote sendo a atração, papai no quarto, revezávamos para lhe fazer companhia.  A cena que guardo dele é única. Manhã de natal, sentado na copa, de pijama, papai fazia cavalinho para o neto, cantando docemente, mas quando abri a porta do quarto ele ficou todo sem graça, parou. Não combinava com sua figura masculina, machista mesmo, que sempre ostentava, mas assim,  de surpresa,  era um carinho tão evidente pelo neto, que extravasou,  senti o amor dele por meu filho e o meu por ele . Foi nosso último natal juntos.

Na quarta, casada, algumas vezes passava o natal em Campinas, na casa da mãe, outras, na Mooca, casa de meus sogros. Em ambas,  o gosto do natal  famíliar, todos reunidos, irmãs, irmãos, sobrinhos, cunhados, todos sorridentes, presentes, ceias, alegria, comemoração à vida. Uma trégua de paz, no meio de pequenos conflitos existentes como em todas famílias.

Na quinta, já separada, natal  em casa, já não tinha a mamãe para fazer a ceia, agora, eu a substituía, mas a alegria continuava com o filho casado, nora, os amigos queridos, troca de presentes, risadas, e muita música. Nada mais gostoso do que esse amor de amigos em união.

Na sexta, vontade de não comemorar nada após a morte da irmã caçula, ânimo, apenas para fazer a comida preferida do filhote, nós dois apenas. Penso que não foi triste, foi íntimo, conversa tranquila, lembranças, muitas... Tantas perdas de entes queridos gerou um natal reflexivo entre mãe e filho.  

Agora, nessa sétima vida, chegamos ao natal da pandemia. Como será? De certeza, apenas o simbolismo do nascimento do menino Jesus e a esperança que ele olhe pelos desvalidos, pelos injustiçados e faça renascer o amor nesse mundo tão desigual.

 

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