segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Um samba em São Matheus



Tarde fria de sábado. Enquanto espera as amigas, relembra o medo sentido na semana. A irmã com dores, a impotência diante do câncer, o pavor de vir a senti-las. A conversa com a psiquiatra, o saber estar em crise de ansiedade, sensível a tudo, o remédio anti-depressivo que não quer tomar, mas sabe ser inevitável para que as crises de choro cessem. Acende o cigarro proibido. Telefona inquieta: vocês vão demorar? Não quer ficar sozinha. Quer a rua, as conversas, as risadas, quem sabe alcançar a alegria fugitiva.

Finalmente chegam. Abraços efusiantes, beijos de saudades, sente-se acolhida.

Não sabe como continua gostando da cidade. O ar poluído, o trânsito imenso, ruas e mais ruas congestionadas, mas no carro predomina o riso. Perdem-se, voltam, viram errado, retornam, e o endereço parece ser de um agente secreto que não pode ser encontrado. Comem os salgadinhos, contam as novidades, falam de cabelo, de dieta, de homens, abrem uma cerveja da festa e seguem rumo àquele bairro nunca visitado. É como se fossem turistas na própria cidade. Duas horas e meia depois de viagem conseguem chegar.

O bairro é pobre. A rua triste, casas alinhadas umas às outras, inexistência total de verde, numeração descontínua, botecos, um mini mercado, carros velhos ao longo da calçada, periferia plena, sem cor.

Mas diz o ditado que a vida é sempre inusitada, e já o sorriso do dono da casa ao abrir o portão faz a pobreza sumir do cenário. Um quintal com árvores, uma jabuticabeira, uma mangueira pequena, e uma figueira? Aos seus olhos, sim, mas poderia ser uma cerejeira, laranjeira, limoeiro, qualquer uma delas lembraria a infância na cidade do interior. Vasos espalhados ao longo dos muros, a mesa improvisada, mesinhas espalhadas. A festa prometia.

Alguns conhecidos, muitos desconhecidos, sorrisos de boas vindas, feijoada chamando depois da epopéia da ida.

Anoitecia e a lua compareceu. Linda! Que delícia poder olhar aquela bola cheia no céu e dizer baixinho, como gostava de dizer sempre: “ O luar através dos altos ramos/dizem os poetas todos que ele é mais que o luar/ através dos altos ramos...” Uma paz gostosa tomou conta do seu corpo. Reencontrava-se finalmente.

Logo os músicos foram formando uma roda embaixo das árvores, tamborilando os instrumentos, cantarolando sambas, marcando compasso, afinando os instrumentos. E o som rompe forte. Anuncia o samba pedindo passagem na festa, na noite, na alma.

Ela agora canta as letras de Noel, de Paulinho, de Zeca e Candeia. Agora dança acordando os músculos aprisionados nas noites anteriores no hospital. Sorri e canta. Sorri e encontra sorrisos brancos de volta. Sorri e acha cúmplices para sua euforia.

Uma pausa.

Na pequena cozinha dois homens chupam laranja. Ela também quer uma metade pois sente que já bebeu bastante. Conversou com muitas pessoas, brincou, falou sério, disse bobagens, riu e fez rir, mas não pode passar da conta. Não. Não é bêbada que quer ficar. Apenas busca aquele descomprometimento que o álcool proporciona.

A conversa é recheada de malícia, a laranja descascada é artifício para olhares, palavras de duplo sentido, frases metafóricas, despertando a libido entre ela e o outro, o desconhecido simpático, de olhar desejante. O Ego aumenta com o comentário do amigo: Mas ela tem olhos lindos! Você viu? São azuis demais.Risos... Sim, ela tinha certeza que o outro já havia descoberto seu olhar e respondia com olhos verdes como ondas que a invadiam. Era importante para ela esse desejo implícito, esse tesão masculino, para tira-la do inferno dos dias anteriores. Foi audaciosa no falar, profunda no olhar, uma mulher livre, ciente do seus encantos maduros ao homem mais jovem que respondia contente ao seu apelo

Aquele diálogo de sedução mútua é interrompido com a chegada do dono da casa. Fundador da escola de samba do Nenê, figura magra, andar alquebrado, os cabelos brancos, soltos, cobertos em parte por um daqueles gorros africanos, o velho sambista recebe os cumprimentos e senta na mesa para chupar laranjas também. É como a chegada de uma entidade. A conversa muda, o tema é música. Ele canta o samba que perdeu na escola, fala da influência da poder econômico nos carnavais paulistas, da necessidade das escolas se adaptarem aos novos tempos, de um certo desencanto, e quando ela dá por si, está falando versos, desafiada pelo poeta popular. Um pouco nervosa consegue improvisar algumas rimas e a aprovação dele soa como aplausos. É uma conversa de mestre e discípulos, todos escutam encantados.

O burburinho lá fora chama sua atenção. Chegou um dos papas do banjo e cavaquinho. Todos querem ouvi-lo, e o quintal enche-se da melodia tirada por seus dedos mágicos. Ela, atenta, escuta, fecha os olhos, é só música.

Um dos homens com quem conversava vem se despedir. Atrás, o desconhecido interessante. Recebe um beijo na face, depois outro na boca. De leve, tímido, macio. Sua voz fala a seu ouvido: Não esqueci a conversa da cozinha, precisamos termina-la. Você tem cartão?

Como tantas vezes, é pega de surpresa e espantada diz: não. Sabe que é um não que soa como uma barreira intransponível. O homem não diz nada. Um último abraço. Sai.

Na volta, as risadas das amigas: Mas você é muito boba! Não ter cartão não significa não ter telefone. Por que faz isso?Ela ri. Está acostumada a jogar fora as oportunidades de prazer, ficando apenas com as lembranças. E, na verdade, naquela noite queria apenas ter a felicidade transmutada em samba.